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Deixando o conforto para colher vida
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Escrito por FÁBIO AGUIAR LISBOA   
23-Jul-2009

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Uma das campanhas de maior repercussão entre os batistas brasileiros em 2009 tem sido a da construção de um novo Lar Batista F. F. Soren, na região da grande Palmas (TO). Em meio aos inúmeros desafios apresentados no decorrer de qualquer campanha há sempre aqueles mais ousados, neste caso é o de se apresentar como obreiro para atuar com as crianças desta instituição.

Uma característica marcante da jovem Haydée Gomes Silva, de 27 anos, é seu profundo compromisso com o mestre Jesus Cristo e a sua paixão pela obra missionária. Foi justamente o amor pelas almas perdidas que fez com que esta enfermeira, que está em processo de conclusão do curso de pós-graduação em Missões do Centro Integrado de Educação e Missões (Ciem), aceitasse o desafio de dedicar alguns meses de sua vida ao trabalho no Lar Batista F. F. Soren.

No final de 2008, Haydée, que é neta do saudoso pastor David Gomes, se viu ante o dilema de escolher um local para realizar seu estágio de final de curso no Ciem. Porém, ao contrário de optar por um trabalho que lhe permitisse permanecer no conforto do lar e no convívio familiar, no Rio de Janeiro, decidiu atender a um convite feito pelo diretor executivo da Junta de Missões Nacionais, pastor Fernando Brandão, e seguiu para a longínqua Tacajá, atual localização do Lar.

Conheça um pouco da história desta jovem missionária, que está tendo a oportunidade de usar seu conhecimento profissional em uma instituição que abençoa a vida de inúmeras crianças em situação de risco social.

O Jornal Batista - Como o Lar Batista F. F. Soren entrou na sua vida?

Haydée Gomes Silva - Desde pequena ouço falar sobre os Lares Batistas F. F. Soren e David Gomes, este em Barreiras. Pude ofertar em algumas campanhas de contribuição direcionadas a estas instituições. Confesso que a minha curiosidade era maior quando pensava no Lar de Barreiras por saber que ele havia recebido o nome do meu avô. Maior ainda era a curiosidade ao ver fotos e ao ouvir meu pai falar com alegria sobre as experiências vividas em suas visitas aos dois lares enquanto coordenador da área de Expansão Missionária da Junta de Missões Nacionais. Sobre o Lar F. F. Soren, meu desejo de conhecê-lo cresceu mais quando conheci a família do  pastor Mario Rosa Teixeira, que foi diretor do Lar. Eles se referiam aos anos que haviam passado por aqui com tanto amor e carinho que acabei nutrindo um desejo grande em conhecer esta instituição.

OJB - E o desafio de realizar seu estágio nesta instituição, como surgiu?

Haydée - Surgiu em outubro de 2008. Estava orando e procurando um lugar para realizar o meu estágio. Não pedi muito a Deus, somente que me enviasse a um lugar no qual a união de minha profissão e vocação fosse possível. Namorei alguns campos e, em meio às muitas possibilidades, recebi um convite muito especial. O pastor Fernando Brandão convidou-me a realizar o estágio aqui onde estou hoje. A proposta era que eu unisse o meu curso de missões a um trabalho voltado para a área de saúde de forma a melhorar a qualidade de vida das crianças e dos adolescentes do Lar. Gostei da proposta, reconheci que Deus estava respondendo minhas orações, preparei um projeto de trabalho e aqui estou desde 28 de fevereiro de 2009, feliz e maravilhada com a ação poderosa de Deus.

OJB - Como é sua atuação no Lar Batista?

Haydée - Bem, primeiro preciso explicar como foi minha chegada aqui. Vim para cá para aplicar o meu projeto de estágio, que tinha como objetivo trabalhar através de palestras e atividades a melhoria na qualidade de vida das crianças e adolescentes do Lar, além de aplicar um treinamento de liderança na igreja local. O que não sabia é que meu projeto ganharia um item de responsabilidade muito maior. Ao chegar, tomei conhecimento de que os meninos haviam acabado de ficar sem mãe social. Parecia que a minha vinda até aqui nesta data havia sido providenciada por Deus. Acabei por me tornar uma mãe social e pude, desta forma, conhecer muito de perto os meninos e acompanhá-los em suas necessidades. Penso que não poderia ter experiência melhor que esta. É claro que não assumi a responsabilidade sozinha, afinal a experiência que tinha nesta área era mínima. O meu trabalho aqui é uma mistura de mãe social, coreógrafa e enfermeira. Como mães sociais temos responsabilidades como os preparar para a escola, observar a higiene do corpo e dentes, contar histórias para os pequenos e orar com todos de quarto em quarto antes de dormir. O trabalho é cansativo e, muitas vezes, se torna repetitivo. Entretanto, é gratificante saber que em tudo isso estou contribuindo com o seu desenvolvimento.

Como enfermeira tenho responsabilidades como realizar curativos diários, avaliar questões de saúde, orientar funcionários da cozinha e estar disponível para socorros noturnos.

Além disso, as meninas do Lar gostam muito de fazer coreografia, o que me fez juntar os meus poucos conhecimentos aos delas e pudemos realizar algumas coreografias.

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OJB - Quais as maiores necessidades existentes?

Haydée - A primeira é na área da saúde, pois para atender cerca de 7 mil habitantes a cidade possui somente um hospital (sem muitos recursos), uma unidade de Programa de Saúde da Família (PSF) e um médico que se divide no atendimento destas duas unidades. Quando ele se ausenta da cidade ficamos sem médico.

Necessitamos de voluntários: médicos, dentistas, psicólogos, nutricionistas, pedagogos, professores, pessoas que ensinem artesanato, vocacionados, enfim, de servos de Deus que, com suas habilidades e conhecimento, estejam dispostos a doar um tempo de suas vidas ao cuidado e ao ensino dessas crianças e adolescentes.

Outra necessidade está na área do aprendizado. As crianças do Lar recebem reforço escolar. O reforço é importante, pois na escola a professora não tem possibilidade alguma de dar atenção exclusiva para cada aluno. Caso tivéssemos mais voluntários nesta área, o trabalho certamente seria melhor!  

Uma terceira necessidade é a falta de acompanhamento psicológico. No Lar há crianças que foram retiradas de situações de risco como violência sexual e física, drogas, abandono, pais alcoólatras, miséria e prostituição. São muitos os traumas, mas o Lar não tem um profissional especializado para investir nessa área. Na cidade não há psicólogos. Portanto, literalmente, temos depositado a nossa confiança em Jesus, o maior psicólogo do mundo.

OJB - Que vitórias você contemplou no tempo no Lar?

Haydée - Muitas vitórias, muitas bênçãos. A primeira delas é o fato de ter vindo para cá sem experiência com esse tipo de trabalho e, com a misericórdia de Deus, ter conseguido me adaptar e lidar com todos aqui.

As crianças são ótimas, algumas têm algumas manias que precisam ser trabalhadas. No entanto, são questões que, com bom relacionamento e conversa, podem ser contornadas.

Na saúde cada criança passou a ter sua própria caneca para beber água, seu sabonete e sua saboneteira. Garantir que cada um tenha seus utensílios de higiene é também uma garantia da minimização na transmissão destas e outras doenças.

Para mim uma grande vitória aconteceu com um menino de oito anos de idade que fazia xixi diariamente na cama. Ele parou de fazer, mas graças a um investimento exclusivo. Todas as noites, durante duas semanas, eu o acordava às 23h para o lembrar de ir ao banheiro. Depois os meninos passaram a acordá-lo e, hoje, ele levanta sozinho e não faz mais xixi na cama. É bom demais saber que sou parte dessa vitória!

Na área da alimentação tivemos uma prova do real cuidado de Deus com essas crianças. Peixes foram apreendidos por causa da pesca ilegal e o Ibama trouxe essa carga duas vezes para o Lar. Desta forma, durante dois meses tivemos peixe à vontade. Também conseguimos tornar mais frequente a compra de frutas e legumes para enriquecer a alimentação das crianças.   

A Chegada das novas missionárias India e Roseane foi também resposta de oração. Elas são benção, muito dedicadas.

Cada novo aprendizado é uma vitória. Quando identificamos que a criança está se desenvolvendo e aprendendo a ter atitudes que lhe são sadias, ficamos muito felizes.  

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OJB - Você acredita que este é um caminho válido para os batistas lidarem com as necessidades existentes na sociedade?

Haydée - As crianças que aqui chegam foram retiradas de situações de risco. No Lar elas têm oportunidade de se desenvolverem longe de pais alcoólatras, agressivos, viciados em drogas, longe do abuso sexual e da prostituição. Os que são órfãos recebem o presente de serem amados e cuidados. Todos são privilegiados em poderem conhecer o amor de Deus e de diariamente serem instruídos sobre o que a Bíblia ensina.

Sim, este é um caminho grandioso e valiosíssimo para evitar que essas crianças tenham um futuro trágico. Precisamos continuar investindo em instituições assim, mas não é suficiente para lidar com os problemas que encontramos em nossa sociedade.  

Manter uma instituição como essa é muito importante para tratar as consequências de uma sociedade desestruturada, mas não resolve os problemas sociais do Brasil. Ainda continuará o abuso sexual, a violência física, os dependentes químicos, os marginais, os moradores de rua, a prostituição, o preconceito e a miséria. O Lar ameniza as consequências do problema, mas a solução se chama Jesus Cristo, não há outra! Nós, batistas, precisamos sair da nossa zona de conforto e avançar na pregação do Evangelho. As pessoas precisam de Deus!

Jesus lidou com todos os tipos de necessidades e realidades, com pobres e ricos. Fez isto porque amava as pessoas. Ele não tinha um grupo específico de trabalho, mas todos eram alvo de seu cuidado. Ele é nosso professor e devíamos estar fazendo como ele. Precisamos dedicar tempo às pessoas.

Certa vez. dirigindo o carro no Rio de Janeiro, parei em um sinal de trânsito e um mendigo veio até minha janela (que estava fechada, é claro). Assustei-me, mas quando vi que o homem estava falando abaixei o vidro. Desta vez foi ele que se assustou. Olhando em meus olhos exclamou: “Moça, eu nem acredito que a senhora abriu o vidro para me ouvir!”. Eu lhe respondi: “Ué, você estava falando e eu realmente abri para te ouvir”. O incrível é que, em pleno Rio de Janeiro, o nosso reflexo é travar a porta, mas jamais abrir o vidro. A questão ali é que o amor de Deus foi maior que o medo que eu poderia sentir. Vi aquele homem falando e dei-lhe a oportunidade de ser ouvido.

Compartilhei rapidamente com ele sobre o amor de Deus e lhe disse que Jesus queria transformar a sua vida. O sinal abriu, segui em frente, e, quando olhei para trás, o homem estava em lágrimas, provavelmente sem acreditar no que havia ocorrido. Quantas pessoas que passam por nós precisam apenas ser ouvidas? Quantas pessoas necessitam de algo que temos condições de dar ou fazer? Quantas pessoas precisam se sentir amadas por nós, para conseguirem se abrir para compreender o amor de Deus? Muitas!

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Cadastro de trabalho social batista

A Convenção Batista Brasileira está elaborando um cadastro das instituições e projetos na área de Ação Social mantidos por igrejas ou instituições batistas. Esta é uma atividade desenvolvida pelo DAS - Departamento de Ação Social da Convenção Batista Brasileira. O DAS  atua como órgão consultivo para igrejas e pessoas que desejam informações para iniciar um projetos de Ação Social.
 

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FÁBIO AGUIAR LISBOA

Editor de OJB

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